O presidente da FPS Guilherme Bastos: "Ser dirigente é uma missão muito difícil de abandonar"
-- Conte-nos um pouco o seu percurso no dirigismo desportivo, mais especificamente, como, e em que circunstâncias, chegou à Direcção da FPS.
Eu fui atleta do Surf Clube de Viana desde os meus 12/13 anos. Aos 16 já angariava patrocínios para os mundiais de surf, aos 18 fui convidado para a Direcção do Clube e da Federação, logo a seguir fui eleito Presidente do S.C.V. e deixei a Federação. No ano 2000 fui convidado para a lista do anterior Presidente, aceitei e fomos eleitos. Pouco depois o anterior Presidente renunciou e eu assumi o cargo de Presidente, até hoje.
-- Recorde-nos qual é o programa da sua Direcção; linhas mestras e objectivos?
Esta Direcção assumiu vários compromissos; resumidamente: continuar com a gestão equilibrada e transparente dos dinheiros públicos, apostar na formação através dos circuitos esperanças, Taça de Portugal e Selecções, incentivar e ajudar as associações (A.N.S. e A.P.B.) a organizar os respectivos circuitos nacionais, colaborar com o Instituto do Desporto e restantes organizações e ajudar todos os clubes a crescer e a dinamizarem-se.
-- E como vê o cargo de presidente, que papel quer o Guilherme desempenhar e que legado, se é que pensa nesses termos, quer deixar?
O papel do Presidente é “dar a cara”, assumir os compromissos pessoalmente, gerir os assuntos correntes e diários e garantir que tudo é feito de acordo com os princípios que a Direcção se propôs. Quanto ao legado, não penso muito nisso … sei onde quero que a FPS esteja no fim do mandato, depois será responsabilidade dos próximos e de maneira nenhuma quero condicionar o futuro.
-- Sabemos que as prioridades desta Direcção são as Selecções Nacionais e a formação, com enfoque nos circuitos nacionais de esperanças. Acha que esse foco na formação é bem compreendido e aceite no seio da "família" dos desportos de ondas?
Claro que sim! Os Esperanças são os circuitos mais importantes a nível nacional, por isso é que toda a gente se empenha neles. Seja a organizar, a participar ou a opinar para os melhorar. É assim que são feitas algumas críticas, construtivamente, sempre com o objectivo comum de caminhar para a excelência.
-- Todas as críticas são construtivas?...
As críticas são sempre construtivas, por mais disparatadas que possam parecer. O que não podemos confundir é com insultos ou com o facto de impormos as nossas ideias sem estarmos mandatados para tal.
-- Se é verdade que existe grande esforço, com resultados visíveis, nas Selecções, como explica que, este ano, Portugal não esteja representado nos World Surfing Games da ISA?
Pelas razões anteriores, ou seja, a preocupação são os Juniores. A maior parte dos recursos financeiros que temos são canalizados para os mais jovens. É muito complicado para a FPS participar, todos os anos, em mais de duas provas internacionais. A prioridade é o Eurosurf, Eurojunior e o Mundial de Juniores. As restantes provas só em anos muitos excepcionais.
-- Se dizemos que existem resultados nas Selecções, é inevitável falar na medalha de prata do Vasco Ribeiro no Mundial de juniores do Peru. Quanto deste sucesso pode ser reclamado pela FPS?
O sucesso é unicamente dele, do Vasco, por ser uma pessoa excepcional e um atleta de excelência. À FPS compete criar e contribuir com as condições necessárias e possíveis para que este tipo de atletas consigam surgir e singrar no mundo competitivo.
-- Ainda relativamente ao Vasco, e pela sua experiência e acompanhamento da sua evolução junto da Direcção Técnica Nacional e Seleccionador, acha que é cedo para falar nele como o herdeiro do Tiago Pires?
As situações são muito diferentes, são cerca de quinze anos que separam ambos. Mas existem pontos comuns, bastante semelhantes, como é o caso dos resultados obtidos nas provas de Selecções. A resposta é sim! Neste momento julgo que o Vasco é quem reune as melhores condições para continuar o “sonho” iniciado pelo Tiago.
-- Falar de formação e de Desportos de ondas como alta-competição implica falar dos Centros de Alto Rendimento. Como está a sua implementação? E acha que é o investimento prioritário para o desenvolvimento destas modalidades?
Neste momento, temos quatro centros em fase de construção (Viana, Aveiro, Nazaré e Peniche) que julgo estarem finalizados entre o fim de 2011 e o inicio de 2012. É parte do investimento prioritário. A outra parte seria o investimento directamente na formação dos melhores atletas portugueses, criando uma espécie de “Dream Team” aproveitando todos os benefícios de que usufruem as modalidades olímpicas em Portugal.
-- Existem, neste momento, os meios para esse plano global?
Não, nós não temos esses meios. Mas o Estado dá-os a outras federações, por isso, continuaremos a lutar por aquilo que julgamos justo e equitativo. Pelo menos tem de nos ouvir!
-- Numa altura de crise como esta, que papel podem desempenhar os desportos de ondas junto do turismo, sector considerado estratégico para a nossa economia? Sente que estão, de facto, a ser um vector de atracção turística bem aproveitado pelas autoridades competentes?
O Turismo de Portugal esteve a tentar compreender o Surf e investiu algum valor nos últimos anos. A sensação que me deu foi de alguma desorientação, nomeadamente nos investimentos muito focalizados em algumas provas internacionais realizadas em Portugal. Mas julgo que, vendo o investimento global, o Surf foi a modalidade que mais retorno deu, tendo em conta o custo/benefício. Esperemos que nos próximos anos o valor seja reforçado e que haja uma orientação para o apoio aos atletas individualmente e a eventos mais diversificados.
-- Refere-se, obviamente, à etapa do Mundial ASP de Peniche patrocinado por uma grande marca internacional, e a provas do circuito de qualificação mundial. Acha que o Estado deveria recentrar as suas prioridades? Afinal, há quem diga está a financiar publicidade a marcas privadas e a fazer pouco pelas bases da modalidade, que é como quem diz, pelo trabalho de formação dos clubes e da própria FPS...
Refiro-me objectivamente a ambos os tipos de provas. E julgo que essa aposta, que traz benefícios a muito curto prazo, não acrescenta nada no médio/longo prazo. Passo a explicar: um atleta como o Tiago Pires dá muita mais visibilidade e durante mais tempo, interna e externamente, a um país. Assim, se investirmos nas bases, os “lucros” serão substancialmente maiores com menos investimento e o futuro fica assegurado. E o que gastamos fica no país, não é distribuído por atletas e organizações estrangeiras.
-- E essa crise, como está a afectar o surf? Como indústria tem capacidade para sobreviver? E a Federação? E como está a relação entre ambas? Parceria solidária? Ou não?...
O Surf e a Federação são instituições muito novas, ou seja, não tem vícios enraizados e é relativamente fácil a adaptação a novas circunstâncias. Só temos de nos saber adaptar e aproveitar eventuais oportunidades. Quanto à indústria, existe ainda um grande défice de profissionalismo nos seus gestores. Salvo algumas excepções, o perfil é o de oportunismo imediato. Não se deve chamar indústria, mas sim comércio. Não criam mais-valia, apenas se servem do trabalho das instituições e dos atletas para promoverem o produto que importam e revendem com elevadas rentabilidades, sem reinvestir no Surf, ignorando as preocupações de médio/longo prazo. A crise presente é muito má para todos, mas, espero, irá servir limpar o mercado de todos aqueles que não quiserem ver a realidade e mudar de atitude.
-- Dentro da FPS existem várias modalidades, todavia essa parece ser, por vezes, uma gestão difícil de fazer, nomeadamente, no que diz respeito ao surf e bodyboard. Existe, de facto, preconceito face ao bodyboard ou serão os bodyboarders apenas demasiado susceptíveis?
Dentro da Federação não existe qualquer preconceito nem dificuldade em gerir as várias modalidades. Quando falo em Surf, faço-o tendo em mente todas as modalidades, sem qualquer ideia de sectarismo. Agora, fora da Federação e nomeadamente na indústria/comércio, pelas razões anteriormente descritas, existem situações de efectivo preconceito. Os bodyboarders poderão ter razão para estarem “susceptíveis” mas também têm uma formação e uma vontade que faz com que ultrapassem qualquer situação de injustiça
Por parte desta Direcção têm todo o apoio necessário para evoluir e para manter o Bodyboard bem vivo em Portugal e no mundo.
-- Quais os grandes desafios da FPS para o futuro? A curto e médio prazo.
A FPS tem de ter uma estrutura fixa que garanta a continuidade e o profissionalismo dos seus serviços. E terá de encontrar formas de auto-financiamento para não ficar tão dependente da vontade politica. Em termos desportivos tem de garantir o acompanhamento aos atletas após os escalões de formação, ou seja, terá de existir uma ligação durante toda a vida desportiva dos atletas de topo. Isto para evitar termos de ouvir coisas chocantes, como por exemplo: uma campeã portuguesa dizer que não tem dinheiro para participar em provas internacionais ou sequer para comprar material técnico.
-- E do Guilherme Bastos? Pessoalmente.
Os meus desafios aumentam na proporção do aumento da família … E também na gestão das minhas empresas que exigem cada vez mais a minha dedicação, devido ao natural crescimento dos negócios e aos tempos de crise que vivemos. Quanto à Federação, ser Dirigente é uma missão que depois de entrarmos é muito difícil de abandonar. No final do mandato (2013) farei 12 anos que estou na FPS. Sou o Presidente com maior longevidade! O grande desafio será conjugar tudo isto, sem que prejudique qualquer uma destas responsabilidades.